Depois da gira, eu aprendi que o melhor caminho é o caminho de casa. A gira mexe com o corpo, com a mente e, principalmente, com o espírito. A gente chega carregado, trabalha, se doa, descarrega, se limpa… e sai dali diferente de como entrou. Por isso, esse momento pós-gira é sagrado.
Quando a gira termina, eu saio limpo energeticamente. Meu campo está aberto, sensível, reorganizado. É exatamente por isso que não é correto parar em boteco, em bar, em barraquinha de lanche ou em qualquer lugar de aglomeração logo depois. Esses ambientes têm todo tipo de energia: conversa pesada, reclamação, vício, excesso, desequilíbrio. E ali, em poucos minutos, a gente deixa ir embora tudo aquilo de bom que acabou de conquistar dentro do terreiro.
Ir para casa descansar não é frescura, nem exagero espiritual. É cuidado. É respeito com o trabalho feito, com os guias, com o orixá e com o nosso próprio corpo espiritual. Em casa, a energia assenta. O corpo relaxa. A cabeça silencia. O que foi limpo se firma. O que foi equilibrado se mantém.
Eu vejo o descanso após a gira como o fechamento do trabalho. Assim como a gira tem começo, meio e fim, o descanso também faz parte desse ciclo. Comer algo simples em casa, tomar um banho com calma, dormir… tudo isso ajuda a selar a energia boa que recebemos.
Respeitar esse momento é entender que espiritualidade não termina quando o atabaque silencia. Ela continua nas nossas escolhas. E escolher ir direto para casa é escolher se preservar, se fortalecer e honrar aquilo que foi feito dentro da gira.
Saravá
Pai Joãozinho Galerani